Em um cenário cada vez mais polêmico, as apostas online vêm conquistando o Brasil a passos largos, não só por meio de sua legalização recente, mas principalmente pelo marketing agressivo e envolvimento de grandes influenciadores e celebridades. Uma reportagem reveladora da revista Piauí revelou os valores astronômicos que figuras como Virgínia Fonseca, Carlinhos Maia, Cauã Reymond, Neymar e outros estão recebendo para divulgar plataformas de apostas esportivas. E, à medida que o dinheiro entra, a saúde mental e o vício, especialmente entre as camadas mais vulneráveis da população, parecem ser deixados de lado.
Os números são impressionantes. Só Virgínia Fonseca, uma das maiores influenciadoras digitais do país, teria recebido um adiantamento de R$ 50 milhões para promover o site de apostas Esportes da Sorte. Mas a forma como os contratos são estruturados é ainda mais controversa: ela não apenas ganha pela promoção direta, mas também recebe 30% do que os apostadores perdem. Em outras palavras, cada vez que alguém perde dinheiro, Virgínia ganha. Se você perder R$ 100, ela embolsa R$ 30. Este modelo é apelidado de “cachê da desgraça alheia”, uma descrição precisa para o sistema que incentiva a perda de dinheiro e, potencialmente, a criação de um vício.
No entanto, Virgínia não está sozinha. Gkay, Carlinhos Maia, Cauã Reymond, e até o astro Neymar receberam quantias exorbitantes por seus papéis como “embaixadores” dessas plataformas. Neymar, por exemplo, teria um contrato de R$ 100 milhões com a Blaze, uma das maiores plataformas de apostas. Os influenciadores estão, de fato, alimentando um império multimilionário, mas a que custo?
A prática tem gerado sérios questionamentos sobre a responsabilidade social dos famosos e a ética por trás de sua promoção de uma indústria conhecida por seu impacto devastador no comportamento de pessoas vulneráveis. E esse modelo de negócios tem se expandido rapidamente, com mais e mais influenciadores aceitando contratos de valores astronômicos para promover essas casas de apostas, muitas delas com sede em paraísos fiscais como Curaçao.
A Construção de Uma Imagem
Para muitos, a aceitação de contratos com plataformas de apostas parece uma decisão estratégica. Felipe Neto, por exemplo, após ser procurado várias vezes, finalmente cedeu às propostas de divulgação. Contudo, depois de refletir sobre o impacto das apostas e seus efeitos sobre os mais vulneráveis, o influenciador decidiu romper o contrato, criticando publicamente a “ansiedade” criada pelas apostas e como os influenciadores, ao aceitarem os contratos, acabam se sentindo obrigados a agradar aos patrocinadores, sem medir as consequências de sua publicidade.
A pressão para promover tais plataformas é grande. Afinal, com cachês milionários, é difícil resistir à tentação de garantir uma fonte de receita estável e crescente. No entanto, o que muitos desses influenciadores não anteciparam foi o impacto social negativo dessa parceria. Enquanto vivem em uma bolha de luxo, seu envolvimento com as apostas contribui para a normalização de comportamentos viciantes e irresponsáveis, sobretudo entre a população mais jovem e menos abastada.
A Explosão do Vício em Apostas
O impacto das apostas online vai além das contas bancárias dos influenciadores. A legalização das apostas esportivas no Brasil, embora tenha sido uma vitória para a arrecadação de impostos, também criou um cenário ideal para o vício. O psicólogo Rodrigo Machado, especialista em dependência, alerta para o risco de as apostas se tornarem um “vírus social”, especialmente quando associadas ao futebol, um dos maiores passatempos do país.
As apostas se tornam ainda mais insidiosas quando são promovidas de maneira tão agressiva nas redes sociais. As plataformas, conhecendo o poder da imagem e influência dos famosos, fazem campanhas para seduzir jogadores novatos, incentivando-os a apostar cada vez mais. Esse comportamento cria uma espiral de dependência, onde o apostador, movido pela promessa de riquezas rápidas, acaba perdendo não só dinheiro, mas também sua saúde mental.
O psiquiatra Rodrigo Machado não tem dúvidas: o modelo atual das apostas, aliado ao marketing feito por celebridades, é uma fórmula perigosa que pode gerar consequências graves. E, como bem destacou uma fonte anônima citada pela Piauí, artistas como Ivete Sangalo e Taís Araújo, que recusaram as ofertas milionárias, estão conscientes de que a promoção dessas plataformas pode arruinar suas imagens públicas permanentemente. “Os tigrinhos da vida pagam muito porque compram, na verdade, a credibilidade de alguém, para depois queimar o filme da pessoa de forma irreversível”, disse.
A Regulação e Seus Efeitos
A regulamentação das apostas, embora necessária, chegou de forma tardia e sem um olhar atento para o impacto psicológico e social que essa indústria exerce. A “Lei das Bets” que foi sancionada em dezembro de 2023 e entrou em vigor em janeiro de 2024, trouxe algumas mudanças positivas, como a proibição do jogo a crédito e a exigência de pagamento rápido dos prêmios. No entanto, a medida também carece de uma abordagem robusta sobre a proteção contra o vício, especialmente entre as classes C e D, que são as maiores vítimas dessa prática.
É claro que a indústria de apostas traz benefícios financeiros, mas os custos sociais podem ser muito altos. Como alerta o psiquiatra Machado, o vício causado pelas apostas online pode ser devastador para os mais vulneráveis, e a falta de políticas públicas adequadas para tratar essa questão é alarmante.
O Futuro das Apostas e o Papel da Mídia
À medida que mais e mais influenciadores se juntam a essa onda, fica claro que o cenário das apostas online está longe de ser resolvido. Os contratos milionários e as campanhas publicitárias agressivas contribuem para uma crescente normalização dessa prática, mas é preciso questionar se o preço da fama e da fortuna vale o risco de destruir vidas. A ética na publicidade, a responsabilidade social dos influenciadores e a proteção dos consumidores são questões que não podem mais ser ignoradas.
O que a reportagem da Piauí deixa claro é que, enquanto celebridades como Neymar e Virgínia Fonseca continuam a embolsar cifras astronômicas, o custo humano dessa indústria se reflete nas histórias de perdas financeiras e dependência que, infelizmente, são apenas a ponta do iceberg. Afinal, a fama de quem vende seu nome para as bets pode ser passageira, mas o vício gerado por elas dura muito mais tempo — e tem um preço ainda mais alto.