PF desvela a engrenagem oculta: a mesma máquina digital que atacou o Banco Central impulsionou Vorcaro, Tarcísio, Nikolas e Flávio Bolsonaro
O que parecia apenas barulho nas redes sociais começa a ganhar contornos de operação organizada.
A Polícia Federal já investiga formalmente uma teia de influenciadores, agências de marketing e sites tóxicos que, de forma coordenada, disseminaram desinformação, ataques institucionais e campanhas políticas disfarçadas de opinião espontânea. No centro dessa engrenagem estão empresas de apostas on-line, interesses financeiros milionários e nomes influentes da política e do mercado.
A base da pirâmide digital
No núcleo do inquérito está a Qualimedia Digital Intelligence — uma agência que, apesar de pouco conhecida do grande público, tem peso institucional: atende clientes como UOL, Metrô de São Paulo e Instituto Ayrton Senna. É justamente essa aura de respeitabilidade que torna o caso ainda mais sensível.
Segundo relatório preliminar da PF, a Qualimedia (ligada aos empresários Beni Marcus Biston e Kleber Rodrigues) aparece como sócia da agência Eleven, especializada na gestão de influenciadores digitais. A Eleven, por sua vez, controla ou subcontrata perfis e sites como:
- @alfinetei
- @futrikei
- @garotxsdoblog
- @otariano
- Bacci Notícias
- Portal Babados
- Lugar da Fama
- Planeta Jovem
Juntos, esses canais formam um ecossistema de alcance massivo, com linguagem agressiva, alta viralização e baixa transparência sobre quem paga a conta.
O “Projeto DV” e o ataque às instituições
Mapas produzidos pelos investigadores mostram que, nos dias 28 e 29 de dezembro de 2025, esse conjunto de perfis entrou em ação no chamado “Projeto DV” — referência direta a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O objetivo era claro:
- desacreditar a liquidação do Banco Master,
- atacar a Febraban, que apoiou a decisão do Banco Central,
- alvejar o diretor do BC Renato Gomes,
- e partir para ataques frontais ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
Havia ainda a tentativa de construir um vilão conveniente: o banqueiro André Esteves (BTG), apontado falsamente como mentor da liquidação.
Nada disso aconteceu de forma isolada ou espontânea.
Elogios à extrema direita, críticas sob medida
Os mesmos perfis — que somam mais de 70 milhões de seguidores — passaram, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, a exaltar figuras da direita com narrativa positiva cuidadosamente calibrada.
O governador Tarcísio de Freitas foi promovido como gestor firme e eficiente, com postagens sobre IPVA, Rodoanel, segurança pública e embates com a Enel.
O deputado Nikolas Ferreira teve suas críticas à Caixa amplificadas e sua caminhada simbólica em defesa de Jair Bolsonaro amplamente divulgada.
O senador Flávio Bolsonaro apareceu como nome viável para a Presidência.
Tudo isso enquanto ataques ao Banco Central, ao STF e a seus membros se intensificavam.
Coincidência? A PF acha que não.
Quem certificava audiência e liberava verba pública
A Qualimedia não atua apenas no marketing político informal. Ela também certifica audiência digital, função crucial para definir quanto dinheiro público veículos e páginas recebem em campanhas governamentais.
Na prática, quem controla esses relatórios controla o fluxo de verba. Diversas agências que atendem o governo federal já utilizaram — ou ainda utilizam — serviços da Qualimedia como “AdTracker”.
O relatório da PF faz questão de registrar que os dados vêm de OSINT (fontes abertas) e não são conclusivos. Ainda assim, o material foi robusto o suficiente para abrir um inquérito formal.

Os pagadores ocultos
Nos bastidores financeiros, os investigadores identificaram nomes conhecidos:
- Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e ex-deputado federal
- Lucas Sanchez, seu filho
- Felipe Filipelli, publicitário e filho de Tadeu Filipelli, ex-vice-governador do DF
A agência Banca Digital, de Filipelli, teria contratado a Lorena Magazine para bancar postagens elogiosas a Tarcísio no Rodoanel, espalhadas por dezenas de perfis.
E o dinheiro não parava aí.
O elo Vorcaro–mídia–bets
Empresários mineiros Flávio Carneiro e Antônio Carlos Freixo Júnior aparecem como peças-chave. Eles criaram a SPE FOONE, que teria participação oculta de Daniel Vorcaro, via o Duke Fundo de Investimento.
A FOONE tentou unir, num só conglomerado digital, veículos como:
- PlatôBR
- Brazil Journal
- IstoÉ digital
- InfoMoney
- Site de Leo Dias
A ideia era simples: vender publicidade em bloco e dividir lucros. O projeto fracassou, mas deixou rastros que agora interessam à PF.
O risco real: Vorcaro pode voltar para a prisão
Se a investigação comprovar que Vorcaro financiou ou articulou ataques ao Banco Central e ao STF para interferir em investigações ou decisões judiciais, o cenário muda drasticamente.
Obstrução de Justiça, quando feita por meio de campanhas de desinformação, é crime grave, inafiançável, e pode levar o ex-banqueiro de volta à prisão preventiva em regime fechado.
O ecossistema completo: agências e casas de apostas
Nos mapas da PF, aparecem cinco agências de marketing digital e três empresas de apostas como possíveis financiadoras do esquema:
Agências sob investigação:
- MiThi
- Portal GroupBR
- Grupo Farol
- Deu Buzz
- Mynd8
Casas de apostas:
- 7GamesBet, ligada a Fernando Oliveira Lima, apontado como próximo do senador Ciro Nogueira
- VaiDeBet, associada ao cantor Gusttavo Lima
- ZeroUm.Bet, com indícios de uso de testas-de-ferro
Segundo a PF, essas empresas teriam viabilizado os recursos que alimentaram a máquina de influência digital.
O que está em jogo
Não se trata apenas de redes sociais ou marketing agressivo. O que a Polícia Federal investiga é algo muito maior:
👉 a captura do debate público por interesses privados,
👉 o uso de desinformação como arma política,
👉 e a corrosão da confiança em instituições centrais da democracia.
Este inquérito está só no começo — e seus desdobramentos podem atingir políticos, empresários, influenciadores e financiadores que, até aqui, operavam nas sombras.
Vale acompanhar. Porque quando a engrenagem começa a aparecer, ninguém mais consegue fingir que era só “opinião na internet”.