O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na noite de domingo (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. A medida busca reorganizar a estrutura financeira da companhia, renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e preservar a continuidade das operações.
O pedido ocorre após uma sequência de resultados negativos, medidas de redução da operação e dificuldades para obter novos recursos. Entre os fatores apontados pela própria companhia estão o ambiente de juros elevados, o encarecimento do crédito, a restrição de financiamento e a pressão sobre o consumo, que reduziram a capacidade de geração de caixa da varejista.
A recuperação judicial representa uma nova etapa de uma crise que começou a ganhar força há alguns anos. Antes de recorrer novamente à Justiça, o grupo já havia adotado um plano de transformação e passado por uma recuperação extrajudicial em 2024.
Os primeiros sinais da crise
Os sinais mais evidentes da deterioração financeira apareceram em 2022, quando a companhia começou a registrar uma sequência de prejuízos trimestrais. Naquele período, o varejo brasileiro ainda enfrentava os efeitos da pandemia, enquanto a alta dos juros iniciada em 2021 aumentava o custo do dinheiro e pressionava o orçamento das famílias.
A empresa passou a fechar lojas com desempenho abaixo do esperado e a buscar uma operação mais enxuta. Ao mesmo tempo, o cenário de crédito mais caro e consumidores mais endividados dificultava a recuperação das vendas.
Foi nesse contexto que a então Via — companhia responsável pelas marcas Casas Bahia e Ponto — começou a defender uma estratégia voltada menos à expansão acelerada e mais à rentabilidade e à geração de caixa.
Plano de Transformação tentou mudar os rumos da empresa
Em 2023, a companhia apresentou seu Plano de Transformação, que tinha como objetivos principais aumentar a rentabilidade, melhorar a geração de caixa e criar condições para uma retomada do crescimento a partir de 2025.
A estratégia incluía mudanças nos canais digitais, revisão da estrutura de lojas, desenvolvimento de novos canais de vendas e investimentos relacionados a serviços financeiros e tecnologia.
A lógica era aproveitar a plataforma já construída pela companhia e priorizar a rentabilização da operação existente, em vez de continuar direcionando grandes volumes de recursos para uma expansão acelerada.
Apesar dos esforços, o ambiente continuou desfavorável para o varejo. Juros elevados, crédito restrito e consumidores mais endividados mantiveram a pressão sobre empresas que dependem de financiamento e do consumo de bens duráveis.
Primeira reestruturação veio pela recuperação extrajudicial
A deterioração das condições financeiras levou a Casas Bahia a buscar uma primeira grande renegociação de suas obrigações em 2024.
Em abril daquele ano, a companhia apresentou um pedido de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras. O acordo havia sido negociado previamente com credores e contemplava debêntures e determinadas cédulas de crédito bancário.
A Justiça de São Paulo aprovou o pedido e determinou a suspensão, por 180 dias, das execuções movidas por credores contra a varejista.
A recuperação extrajudicial é diferente da recuperação judicial. Na primeira, a empresa negocia diretamente com determinados credores e leva o acordo posteriormente à homologação judicial. Já a recuperação judicial envolve um processo mais amplo, no qual a companhia busca reorganizar suas dívidas sob supervisão da Justiça.
Na época, o objetivo era alongar os prazos dos compromissos financeiros e aliviar a pressão sobre o caixa. A renegociação permitiu que a empresa preservasse recursos que seriam destinados ao pagamento de suas obrigações no curto prazo.
A situação voltou a se deteriorar em 2026
Apesar da reestruturação anterior, a situação financeira voltou a se agravar ao longo de 2026.
No segundo trimestre, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões. O número foi fortemente influenciado por efeitos contábeis e não representa, em sua totalidade, uma saída imediata de caixa. Segundo informações divulgadas sobre o balanço, cerca de R$ 9,1 bilhões do resultado negativo estavam relacionados a efeitos não recorrentes. Ainda assim, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões, acima dos R$ 555 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.
A companhia também acelerou o redimensionamento da operação. Entre as medidas adotadas estão o fechamento de centenas de lojas, cortes de despesas, redução de estoques e mudanças na estratégia dos canais digitais.
A empresa chegou a fechar 298 lojas e realizou cortes no quadro de funcionários como parte do esforço para reduzir custos e diminuir a necessidade de capital para manter a operação.
Outro problema foi a dificuldade para levantar novos recursos. A companhia informou que buscou alternativas de financiamento no Brasil e no exterior, mas algumas negociações não avançaram. Com o crédito mais restrito e o custo financeiro elevado, a capacidade de encontrar novas fontes de liquidez ficou ainda mais limitada.
Por que a dívida chegou a R$ 17,3 bilhões?
O passivo informado no pedido de recuperação judicial é muito superior aos R$ 4,1 bilhões que estavam envolvidos na recuperação extrajudicial de 2024.
Dos R$ 17,3 bilhões informados no processo, aproximadamente R$ 16,4 bilhões correspondem a credores quirografários, ou seja, credores sem garantia real. Outros R$ 754 milhões são referentes a obrigações trabalhistas, enquanto cerca de R$ 154 milhões correspondem a dívidas com micro e pequenas empresas.
A diferença entre os valores também ajuda a mostrar que a atual crise é mais abrangente do que a enfrentada pela companhia dois anos antes.
O que a recuperação judicial muda?
O objetivo da recuperação judicial é permitir que a empresa continue funcionando enquanto negocia uma nova estrutura para suas obrigações financeiras.
A medida não significa, por si só, o encerramento das atividades. A companhia pretende manter suas lojas e operações digitais funcionando enquanto busca reorganizar suas finanças. O processo também prevê mecanismos de proteção contra cobranças e execuções de determinados credores durante sua tramitação.
Para a empresa, a prioridade agora é preservar o caixa, manter a operação funcionando e construir um plano que permita renegociar as dívidas em condições compatíveis com sua capacidade financeira.
Para os credores, o processo abre uma nova etapa de negociação, na qual será necessário avaliar as condições propostas pela companhia e o cronograma de pagamento.
Quem faz parte do Grupo Casas Bahia?
O Grupo Casas Bahia está entre os grandes nomes do varejo brasileiro e reúne negócios associados ao comércio físico e digital.
O grupo controla marcas como Casas Bahia, Ponto e Extra.com.br, além da fabricante de móveis Bartira e operações relacionadas a logística, tecnologia e serviços financeiros, como o Casas Bahia Pay.
A estrutura atual da companhia começou a tomar forma em 2009, quando a Casas Bahia foi incorporada à Globex, controladora do Ponto, então conhecido como Pontofrio. Em 2010, a empresa passou a se chamar Via Varejo; em 2021, adotou o nome Via; e, em 2023, passou a utilizar a denominação Grupo Casas Bahia.
Ao longo dos anos, a empresa também ampliou sua atuação em comércio eletrônico, logística, meios de pagamento e serviços financeiros, buscando construir um ecossistema digital integrado ao negócio tradicional de varejo.
Uma crise que vai além de um único resultado
O pedido de recuperação judicial não é consequência de um único trimestre ruim. Ele representa o resultado de um processo de deterioração financeira que se prolonga desde 2022 e que passou por diferentes tentativas de correção.
Primeiro, a empresa reduziu lojas e buscou melhorar a rentabilidade. Depois, lançou um plano de transformação. Em seguida, recorreu à recuperação extrajudicial para alongar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas. Agora, diante de um passivo de R$ 17,3 bilhões e de novas dificuldades de liquidez, o grupo parte para uma recuperação judicial.
O cenário também evidencia o impacto que juros elevados e crédito restrito podem exercer sobre empresas de varejo, especialmente aquelas que precisam financiar capital de giro e dependem do consumo de bens de maior valor.
A nova recuperação judicial terá, portanto, um desafio central: reduzir o peso das dívidas sem comprometer a capacidade operacional do Grupo Casas Bahia de continuar vendendo, gerar caixa e preservar seus negócios.
O desfecho dependerá das negociações com os credores, das decisões da Justiça e da capacidade da companhia de executar o processo de transformação iniciado nos últimos anos. Para uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro, trata-se de mais um capítulo decisivo na tentativa de recuperar a saúde financeira e garantir a continuidade do negócio.